Cultura

Orquestra Sinfônica de Brasília revive obras pouco conhecidas de Pixinguinha em concerto especial

Apresentação no Teatro Nacional resgata composições raras do mestre do choro, muitas nunca gravadas em estúdio

No último sábado (15), a Orquestra Sinfônica de Brasília (OSB) realizou um concerto histórico no Teatro Nacional Claudio Santoro, dedicado a um dos maiores expoentes da música brasileira: Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha. Sob o título “Pixinguinha: o outro lado”, o programa trouxe ao público obras orquestrais praticamente desconhecidas, recuperadas de manuscritos originais das décadas de 1920 a 1940.

Diferentemente do que o grande público costuma associar ao mestre do choro, Pixinguinha não se limitou a conjuntos regionais e pequenas formações. Ele produziu arranjos e composições para orquestra de câmara e sinfônica, muitas das quais jamais foram executadas em vida. O concerto da OSB teve como objetivo central iluminar essa face oculta de sua obra.

O resgate das partituras perdidas

A curadoria do concerto começou há dois anos, quando o maestro titular da orquestra, Carlos Praia, decidiu investigar acervos da Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Salles. “Encontramos mais de trinta partituras inéditas ou incompletas. Com o auxílio de musicólogos e arranjadores, conseguimos reconstruir seis peças completas para orquestra”, explicou o maestro em entrevista ao Revelando São Carlos.

Entre as obras selecionadas estão “Variações sobre um tema popular”, “Scherzo do Menino Dengoso” e “Noturno da Madrugada”. Cada peça passou por um cuidadoso trabalho de edição e orquestração a partir de esboços originais. A instrumentação mescla cordas, sopros e a percussão característica do choro, resultando numa sonoridade que transita entre o erudito e o popular.

Uma noite de redescoberta

Sob a regência do maestro convidado Ricardo Rocha, a OSB executou as peças em ordem cronológica de composição. O teatro lotado recebeu cada obra com surpresa e encantamento. Ao final, o público concedeu uma ovação de pé que se prolongou por mais de cinco minutos.

A flautista Carla Mendes, integrante da orquestra, destacou a complexidade das obras: “Exigem técnica refinada, mas carregam a alma carioca do choro. Foi emocionante perceber como Pixinguinha dialogava com a tradição clássica sem perder a identidade brasileira.”

Um dos momentos mais ovacionados foi a suíte “Recordações de Infância”, que cita o tema de “Carinhoso” transformado em um adágio melancólico. A plateia reconheceu imediatamente o trecho e reagiu com entusiasmo.

“Pixinguinha foi um dos maiores orquestradores brasileiros, e estas partituras provam que ele estava à frente de seu tempo. É uma honra trazê-las de volta ao palco.” — Maestro Carlos Praia

Legado e perspectivas

O concerto não apenas homenageia o compositor, mas também abre caminho para que outras orquestras brasileiras incorporem esse repertório esquecido. A musicóloga e professora da UnB, Juliana Santos, avalia: “A genialidade de Pixinguinha é subestimada nesse aspecto. Ele foi um orquestrador nato, e estas peças revelam um domínio impressionante das técnicas de orquestração.”

A OSB já anunciou a intenção de gravar um CD com as obras restauradas e de realizar apresentações em São Paulo e Rio de Janeiro ainda este ano. Além disso, as partituras digitalizadas serão disponibilizadas gratuitamente no site da orquestra, contribuindo para a difusão do acervo.

Perguntas frequentes sobre o concerto e Pixinguinha

Quem foi Pixinguinha?

Alfredo da Rocha Vianna Filho (1897–1973) foi um músico, compositor e arranjador brasileiro, reconhecido como um dos criadores do choro. Obras como “Carinhoso”, “Lamentos” e “Urubu” são parte do imaginário popular. Sua contribuição para a música instrumental brasileira é imensurável.

Por que as obras orquestrais de Pixinguinha são tão pouco conhecidas?

Durante sua vida, Pixinguinha dedicou-se majoritariamente a conjuntos instrumentais pequenos, como regionais e orquestras de rádio. Suas partituras orquestrais permaneceram inéditas em arquivos e bibliotecas, sendo resgatadas apenas recentemente por meio de pesquisas acadêmicas.

O concerto será repetido ou gravado?

Sim. A Orquestra Sinfônica de Brasília planeja reapresentar o programa em outras capitais brasileiras e iniciou o processo de gravação de um álbum com as peças restauradas. A previsão de lançamento é o segundo semestre de 2025.

Como posso acompanhar as próximas apresentações?

As datas das récitas e as informações sobre a gravação serão divulgadas no site oficial da OSB e nos canais da orquestra. Recomenda-se seguir as redes sociais para atualizações.

Conclusão

O concerto da Orquestra Sinfônica de Brasília representou um marco na valorização do patrimônio musical brasileiro. Ao iluminar a face menos conhecida de Pixinguinha, a OSB não apenas amplia o conhecimento sobre o compositor, mas também reforça a importância do investimento em pesquisa, preservação cultural e difusão do acervo nacional.

Iniciativas como esta mostram que ainda há muito a ser descoberto nos arquivos do país. Que outras instituições se inspirem para resgatar e celebrar a riqueza da música brasileira.